Quimera

Gustavo Oliveira

Tudo bem. A gente vai vivendo nessa grande ilusão. Nesse sonho sem dono. Nesse suspiro bêbado. Que tropeça e não percebe doer. Tudo bem. A gente anestesia a vida a cada dia. Passa o carro, passa o tempo. A gente não percebe nada. Tudo bem. Amanhã eu te peço desculpa. Você me dá um sorriso sem graça. Como quem não esperava ter que desculpar. E tudo bem. A vida continua sem graça. Teu movimento lento do que a vida não passa. E a gente segue com tudo bem. E tudo vai indo bem. Essa angústia às vezes se dissipa. Fica a palavra não dita. Mas martela a palavra que eu falei. Não sei. Se um dia o mundo fosse diferente. Não ter que agradar tanta gente. Entender o que é de verdade ser feliz. Tá tudo bem. Eu te ouço, mas tua voz não me escuta. Essa conversa sem sentido disputa… a atenção do sentido que eu queria para mim. E depois? Se a gente fizer diferente? Se a coisa mudar de repente? Ficará ainda mais fácil sorrir? Se a gente mudasse de casa, prestasse atenção e cuidado. Cuidasse de viver pra viver. Eu cansei. A anestesia não cura. E quanto mais a letargia procura, mais o coração fica infeliz. E a busca de tantas verdades idiotas. Dou risada na cara do idiota. Que traz a verdade fabricada para mim. Já cuspi na cara de uns. E dormi no colo de outros. Mas as verdades morreram todas ali. No passado ausente. Que esperava ser futuro presente. Morreram todos idiotas ali. E o que vem pela frente? Esse grito que arranca a pele da gente. Essa pressa de não ser infeliz. Essa pressa da tonalidade múltipla. Essa fuga do barroco, do que a forma não é nem conteúdo. Pois não era para ser. Essa mistura sem nexo. Essa necessidade instintiva de comprar sentido. E de sentido não ter nenhuma matriz. Me impulsiona na vida. Me joga no vaso das longas idas. No mergulho do que eu não entendo. Do cigarro apagado em minha mão, do vinho que bebi até doer. E não doeu. Dessa vida que não acredito. Que peço todo dia para acordar. Como o sono não chega, na cabeça fica a fumaça do que me resta. O pensamento do que arranquei para doer. Sem saber que doeria. E chorei. E me deixei chorar.

Anúncios

Sobre Gustavo Oliveira

22 anos, Publicitário, Mau-humorado, seco, sarcástico, cáustico, até brincalhão e simpático as vezes. Nem sempre.

Publicado em dezembro 13, 2010, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: