Reflexo

Eu não esperava mais da poesia. Achava um tédio tudo o que resvalasse no sentimento. Aquele rapaz bonito, aquele olho claro, aquele cabelo bagunçado, liso brilhava o espelho do que eu não me via. Eu não queria mais da poesia. Eu era um todo repetido de eu. Minhas metas traçadas eram o sucesso da minha aspereza. Minhas mentiras tinham sentido nobre. Minha dor não parida. Eu sabia que a chuva alegrava e já queria fechar a janela pois o sol, aquele insuportável. Porque o sol.
Eu parava sempre ali. Não conseguia prosseguir ou prochegar. Era tanto orgulho que havia emulsificado tudo o que eu podia sentir. Já estava gravado na história de meus cabelos bagunçados o terror do não poder vir a ser. Se tocasse o telefone, eu não atenderia. Se falasse, eu fingiria que cantava a ária, gélida manina. Minhas mãos esquentavam sempre que ela se aprochegava. Porque, ao contrário de mim, ela sabia aprochegar. Eu odiava cada vez mais a poesia cada vez que eu via que eu era tão assim, pequeno pedaço de nada, achando que sabia sorrir. Mal sabe ela a causa do sorriso. Minha imagem era a repetição das imagens que a gente montou. Eu era a náusea do espelho me dizendo olá. E para oferecer, eu só tinha aquele sorriso.

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Sobre Gustavo Oliveira

22 anos, Publicitário, Mau-humorado, seco, sarcástico, cáustico, até brincalhão e simpático as vezes. Nem sempre.

Publicado em dezembro 6, 2010, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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