OSTINATO E PORTAMENTO

Se me fosse permitido eu poderia passar um dia inteiro ouvindo a mesma música, fumando o mesmo cigarro. Uma jarra de café. Ou de chá, que venho tentando usar para substituir a cafeína.

Poderia parar e ficar pensando durante todo o dia como é fácil e difícil viver. Deixar o vento cantar repetidamente a cada vez que eu colocasse a música para tocar de novo. Minha cabeça funcionaria em compassos. Geralmente quatro por quatro. Geralmente em ré menor.

Eu poderia esquecer o que acontece com o universo. Seria o centro dele. E apenas. E simples assim. E acreditaria que não há no que acreditar. Receberia notícias de alguém querido. E como resposta, diria olá, gosto de você. E simples. Assim. Gostaria por gostar. Assim como gostaria desse barulhinho de mar que chegaria de leve como agora.

Se me fosse permitido, eu seria deus e criaria um só mundo cheio de coisas boas e felizes e inocentes. Olharia o amuleto e veria tudo o que mora em cima e embaixo, se repetindo repetindo repetindo, sendo para sempre igual. Não contendo o tempo que meu espaço ainda pediria para explorar.

Eu ouviria a mesma música mais de dezessete vezes, a mesma ao longo do dia. Em momentos, ela me arrepiaria. Em outros, quereria chorar. E me perguntaria sobre as razões das coisas. E não teria resposta. Bateria o cigarro no cinzeiro azul, e a brisa eu beberia. Engoliria seco o rasgo que causaria a falta de crença no que é essencial e que não é exposto. O sol me exporia às queimaduras que me seriam de dentro.

Se me fosse permitido, eu compraria aquela casinha feliz sozinha perto do píer. Tomaria chá querendo café, mas aos poucos me acostumaria com sua textura menos negra e seu o som mais agudo. Veria que preciso de tão pouco para ter minha casa perto do píer quando a linha do horizonte fosse tão reta e o sol transpusesse minha alma ao se deitar.

Entenderia como é mentira quando acredito. Saberia como é verdade quando quero. Usaria a primeira pessoa do singular sem a menor vergonha. E me permitiria não ser lido. Ouvido ou falado. Desmembraria cada fragmento do que se mostrou o contrário daquilo que se apresentou sobre pompas sérias e enfáticas.

Contaria mentiras que seriam verdades de tão bonitas e agradáveis. Ouviria as vozes que um dia me beijaram e nelas eu cuspiria. Olharia e meus olhos se tornariam amarelos e entrariam dentro do que mente no outro. Devastaria a solidão que o assola. Esfregaria que eu sempre estive ali, sempre, só um pouco mais ou menos só.

Corrigiria algumas palavras e faria um filme. Transformaria uniões em celebrações da verdadeira genialidade. Comeria alegrias, apagaria a luz. Fumaria outro cigarro vermelho, com minha tosse levemente prudente.

Se um dia me fosse permitido, eu pularia dentro do copo com dry martini e pescaria a cereja com a boca. Molharia toda minha roupa. Abraçaria de abraço molhado todos que mergulharam também. Sairia do copo e escreveria um livro. Teria memórias encantadoras e fascinantes que valeriam a pena que se gastasse o nobre dinheiro em troca da misere arte.

Sentaria no café e sentiria vontade de chorar de novo pois a música continuaria lá, e nos momentos críticos de crescendo ela sempre daria vontade de chorar. Porque o choro é o cosmos que extravasa do pequeno universo para a grande idéia. E eu deixaria meu cosmos transbordar e dentro do meu universo inventaria o telefone e ligaria para o meu pai e diria que está tudo bem. Eu viraria uma pessoa.

Pessoa.

Se um dia me fosse permitido eu viraria uma pessoa. Andaria pela rua de chão cinza e céu levemente azul com rosa. Esqueceria quem era maestro no que morreu. E começaria a conhecer os novos regentes. Que então teriam também os seus cosmos transbordando. E falariam sobre ela com a mesma naturalidade de quando tiram a roupa e beijam delicadamente o seio da mulher que lhes pulsa mesmo quando não causa amor. Calariam com a mesma leveza de quando seguram o falo que lhes extravasa mais cosmos de maneira semelhante às lagrimas que limpam o copo de Martini.

Eu não mais duvidaria porque não mais me importaria se um dia acontecesse.

Aconteceu hoje. Eu vi o sol e bebi a música em diminuendo.

(Texto dissertado por Theolonio, um garoto de programa) personagem desenvolvido para um curso de teatro, lembrei e resolvi postar o texto que usei, espero que gostem.

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Sobre Gustavo Oliveira

22 anos, Publicitário, Mau-humorado, seco, sarcástico, cáustico, até brincalhão e simpático as vezes. Nem sempre.

Publicado em outubro 13, 2010, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Saudades de vc, como faz falta no grupo, o primeiro garoto de programa q me fez chorar…
    Vai ver nossa montagem esse semestre neh? vc ta em falta com a gente.

    E trate de arranjar tempo pra voltar a fazer aulas

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